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Publicado em: 30 de dezembro de 2024
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O câncer é uma das doenças mais prevalentes no Brasil. De acordo com dados de 2022 do Instituto Nacional do Câncer (INCA), estima-se 704 mil casos novos de câncer no Brasil para cada ano entre 2023 e 2025.1
O número, no entanto, não supera o de novos casos estimados de doenças cardiovasculares. Em 2023, por exemplo, cerca de 380 milhões de pessoas morreram por conta das doenças cardiovasculares2, enquanto 14 milhões de brasileiros apresentavam algum grau desse tipo de condição.3
“Diante disso, é possível que alguns pacientes enfrentem simultaneamente o câncer e as doenças cardiovasculares.”, conta Dra. Edielle Melo, médica cardiologista. E então? Como lidar com o tratamento do câncer e do coração? Confira como um pode interferir no outro e saiba quais cuidados tomar!
Como vimos, o câncer e doenças do coração são grandes causas de morte no Brasil.1-3 À medida que as pessoas vivem mais, graças aos avanços na Medicina, é cada vez mais comum que alguém tenha essas duas doenças, algumas vezes ao mesmo tempo.4
Isso levou ao surgimento de uma nova área da medicina chamada cardio-oncologia, uma subespecialidade da cardiologia, que trabalha em conjunto com a oncologia para tratar esses pacientes. Essa nova área é importante porque, com a melhora dos tratamentos contra o câncer, também ficou mais claro que alguns desses tratamentos podem prejudicar o coração.4
Determinadas quimioterapias e localizações de tratamento por radioterapia, que são usadas para matar as células cancerosas, podem acabar danificando também o coração e os vasos sanguíneos. Isso pode causar problemas graves, como insuficiência cardíaca, e, em alguns casos, pode até levar à morte.4
Isso ocorre devido à cardiotoxicidade, ou seja, a possibilidade que alguns tratamentos têm de serem tóxicos para o coração. No caso da radioterapia, um outro tratamento utilizado para combater o câncer, as consequências envolvem danos ao pericárdio (camada que reveste o coração) e às válvulas cardíacas.5
Sendo assim, a cardio-oncologia foca em evitar esses problemas, monitorando a saúde do coração antes, durante e depois do tratamento contra o câncer. Nos Estados Unidos, em grandes hospitais, cardiologistas já fazem parte das equipes que tratam o câncer, ajudando a identificar e tratar qualquer problema no coração desde o começo.4
Aqui no Brasil, a Sociedade Brasileira de Cardiologia e a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica criaram uma diretriz para ajudar a prevenir e tratar problemas cardíacos em pacientes com câncer. Esse documento orienta médicos sobre quais pacientes precisam de mais atenção ao coração durante o tratamento.4
Os remédios usados na quimioterapia são frequentemente associados a uma série de efeitos colaterais, que geralmente ocorrem devido ao modo como esses medicamentos funcionam. Eles agem atacando o DNA e as proteínas das células cancerosas, mas no processo também podem afetar células saudáveis. Por isso, a linha entre o efeito terapêutico e a toxicidade é muito tênue.6
Alguns dos efeitos colaterais mais comuns associados a esse tipo de tratamento são:6
No entanto, conforme vimos, o coração também pode sofrer com esses efeitos. A cardiotoxicidade pode surgir em diferentes fases do tratamento: logo no início, durante ou até anos após a quimioterapia.7
Além disso, ela pode variar de disfunções cardíacas leves, como redução na capacidade do coração de bombear sangue, até uma insuficiência cardíaca irreversível. Sem contar que também pode afetar os vasos sanguíneos e a condução dos batimentos cardíacos, levando a arritmias ou pressão alta.7
“Os danos ao coração nem sempre apresentam sintomas no começo, o que torna difícil identificar o problema antes que ele se agrave. Por isso, o acompanhamento frequente é essencial”, diz a Dra. Edielle.
“O uso de ecocardiogramas, por exemplo, pode ajudar a monitorar a função cardíaca e detectar disfunções.”, continua.
A radioterapia é um tratamento muito comum e eficaz para o câncer, onde se utiliza radiação ionizante (um tipo de energia) para destruir as células cancerígenas. Mas, quando ela é direcionada para a região do tórax (ou peito), como nos casos de câncer de mama, pulmão ou linfoma, ela pode, afetar o coração e os vasos sanguíneos ao redor.8
Os efeitos dessa radiação no coração podem aparecer logo após o tratamento ou até muitos anos depois. No curto prazo, alguns pacientes podem ter inflamação no revestimento do coração (chamado pericárdio), o que pode causar dor no peito ou acúmulo de líquido ao redor do órgão.8
A longo prazo, a radiação pode aumentar o risco de problemas cardíacos graves, como artérias entupidas (doença arterial coronariana), batimentos cardíacos irregulares, problemas nas válvulas do coração, ou até insuficiência cardíaca, que é quando o coração não consegue bombear sangue como deveria.8
Algumas pessoas têm um risco maior de ter esses problemas, especialmente se recebem doses altas de radiação, se o lado esquerdo do peito é irradiado (onde o coração está mais próximo), ou se já têm problemas cardíacos antes do tratamento.8
De modo geral, os fatores de risco são:9
Além disso, é fundamental ressaltar que fatores como pressão alta, diabetes e tabagismo, que estão naturalmente associados às doenças cardiovasculares, também são fatores de risco nesse caso.9
Por isso, os médicos tomam várias precauções para proteger o coração durante a radioterapia. Eles podem, por exemplo, usar técnicas especiais para direcionar a radiação de maneira mais precisa, limitar a dose de radiação recebida pelo coração, ou até pedir que o paciente prenda a respiração durante o tratamento para afastar o coração da área irradiada.8
O monitoramento da saúde cardiovascular durante o tratamento oncológico, especialmente com terapias associadas a toxicidades cardiovasculares, é fundamental para minimizar o risco de complicações.10
Antes de iniciar o tratamento, é essencial realizar uma avaliação de risco cardiovascular. Essa avaliação é baseada em fatores relacionados ao:10
Agora, entenda quais são os principais exames que fazem parte desse tipo de monitoramento!
É a técnica de imagem de primeira linha para monitorar a função cardíaca. É frequentemente usada antes, durante e após o tratamento para detectar cardiotoxicidade.10
Utilizada para avaliar a presença de fibrose, infarto, miocardite e outras anormalidades estruturais do coração. Embora tenha um custo mais elevado e algumas limitações, é uma ferramenta importante em casos específicos.10
As troponinas cardíacas são marcadores de lesão cardíaca, com elevações associadas a um maior risco de eventos cardíacos. Monitorar os níveis pode ajudar a identificar cardiotoxicidade, especialmente com quimioterapias.10
Além disso, os peptídeos natriuréticos são indicadores de disfunção ventricular e insuficiência cardíaca, sendo mais sensíveis que as troponinas na detecção de toxicidade cardíaca causada por certos tratamentos oncológicos.10
Primeiramente, é fundamental controlar os fatores de risco cardiovascular, monitorar regularmente a pressão arterial, os níveis de colesterol e a glicemia, especialmente para quem tem histórico familiar de doenças cardíacas.11
Além disso, em pacientes com risco elevado de doenças cardíacas, o uso de medicamentos para controlar o colesterol e para a hipertensão pode ser indicado, sempre consultando um médico.11
E, claro, o acompanhamento é essencial! Por isso, pacientes que estão em tratamento para câncer com terapias potencialmente cardiotóxicas devem ser monitorados de perto para detectar precocemente qualquer complicação cardíaca.11
Como você pode ver, o tratamento do câncer e o coração são assuntos que parecem distintos, mas que têm tudo a ver! Por isso, é fundamental que você mantenha o acompanhamento cardíaco ao longo da sua batalha contra o câncer.11 E não se esqueça: você não está só!
Por isso, aproveite para conferir o blog A Vida Plena e continue se informando sobre bem-estar e qualidade de vida durante o tratamento oncológico!
Data de elaboração do conteúdo: 02/09/2024
– Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor.
– As opiniões emitidas pelo(a) especialista são independentes e, necessariamente, não refletem a opinião da Libbs.
Referências:
1. Ministério da Saúde. Instituto Nacional do Câncer – INCA. INCA estima 704 mil casos de câncer por ano no Brasil até 2025 [Internet]. 2022. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/noticias/2022/inca-estima-704-mil-casos-de-cancer-por-ano-no-brasil-ate-2025. Acesso em: 08 out. 2024.
2. Oliveira GMM de, Brant LCC, Polanczyk CA, Malta DC, Biolo A, Nascimento BR, et al. Estatística Cardiovascular – Brasil 2023. Estatística Cardiovascular – Brasil 2023 [Internet]. 2024 Feb 14;00(00). Available from: https://abccardiol.org/article/estatistica-cardiovascular-brasil-2023. Acesso em: 16 dez. 2024.
3. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde. Use seu coração para se conectar com a sua saúde! 29/9 – Dia Mundial do Coração [Internet]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/use-seu-coracao-para-se-conectar-com-a-sua-saude-29-9-dia-mundial-do-coracao/. Acesso em: 08 out. 2024.
4. Instituto Nacional do Câncer – INCA. Cardio-oncologia: a nova era da medicina voltada à interação entre duas doenças frequentes. Tratar o câncer e preservar o coração. Disponível em:https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//capa_2.0-rede-cancer-19.pdf. Acesso em: 08 out. 2024.
5. Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) É preciso tratar o câncer sem esquecer do coração [Internet]. 2022. Disponível em: https://www.portal.cardiol.br/br/post/%C3%A9-preciso-tratar-o-c%C3%A2ncer-sem-esquecer-do-cora%C3%A7%C3%A3o. Acesso em: 08 out. 2024.
6. Amjad MT, Kasi A, Chidharla A. Cancer Chemotherapy [Internet]. PubMed. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK564367/. Acesso em: 08 out. 2024.
7. Florescu M, Cinteza M, Vinereanu D. Chemotherapy-induced Cardiotoxicity. Maedica (Bucur). 2013 Mar;8(1):59-67.
8. Hufnagle JJ, Andersen SN, Maani EV. Radiation-Induced Cardiac Toxicity. [Updated 2023 May 29]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): 2024. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK554453/. Acesso em: 08 out. 2024.
9. Siaravas KC, Katsouras CS, Sioka C. Radiation Treatment Mechanisms of Cardiotoxicity: A Systematic Review. Int J Mol Sci. 2023 Mar 27;24(7):6272.
10. Hajjar LA, Costa IBSDSD, Lopes MACQ, et al. Brazilian Cardio-oncology Guideline – 2020. Arq Bras Cardiol. 2020 Nov;115(5):1006-1043.
11. Curigliano G, Lenihan D, Fradley M, et al; ESMO Guidelines Committee. Electronic address: clinicalguidelines@esmo.org. Management of cardiac disease in cancer patients throughout oncological treatment: ESMO consensus recommendations. Ann Oncol. 2020 Feb;31(2):171-190.
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