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O calor intenso não causa apenas desconforto. A exposição a altas temperaturas é um fator de risco importante para problemas cardiovasculares¹

No verão e durante ondas de calor, esse risco se torna maior, especialmente para pessoas que já convivem com hipertensão, colesterol alto ou outras doenças do coração.1,2

Com o aumento das temperaturas, o organismo precisa trabalhar mais para manter o equilíbrio interno. Esse esforço extra pode sobrecarregar o sistema cardiovascular e favorecer complicações¹.

Por isso, o cardiologista Dr. Jairo Lins Borges (CRM 46977 SP e RQE 132337) aponta que entender como o calor afeta o coração é um passo essencial para reconhecer sinais de alerta e prevenir situações mais graves. “Principalmente para quem tem mais risco ou já convive com alguma condição cardíaca”, diz o médico, ressaltando a importância da mensagem para quem tem pressão e colesterol alto, obesidade ou histórico familiar de doenças cardíacas e acidente vascular cerebral (AVC).

Verão e ondas de calor: altas temperaturas são um risco para o coração?

Quando o corpo é exposto ao calor, ele ativa diversos mecanismos para regular a temperatura interna, um processo chamado de termorregulação. Quando o ganho de calor supera a capacidade do corpo de eliminá-lo, inicia-se uma sequência de eventos que pode comprometer o sistema cardiovascular¹.

Uma das principais respostas ao calor é o aumento da transpiração e do fluxo de sangue para a pele. Isso ajuda a resfriar o corpo, mas também provoca perda de líquidos. Se essa perda não for reposta adequadamente, pode ocorrer desidratação, o que aumenta o risco de complicações cardiovasculares¹.

Além disso, com a perda de líquidos, o volume de plasma no sangue diminui. Como consequência, os glóbulos vermelhos e outras substâncias ficam mais concentrados, deixando o sangue mais espesso, o que também aumenta a concentração de glóbulos vermelhos. Isso favorece a formação de coágulos, conhecidos como trombos. Esses coágulos podem obstruir vasos sanguíneos, elevando o risco de AVC e de doenças cardíacas¹.

Essa conexão faz com que a exposição ao calor intenso esteja relacionada ao aumento de complicações por doenças cardiovasculares. Isso é particularmente importante para pessoas com risco aumentado de doenças cardiovasculares, como idosos, ou com diagnóstico prévio de doença cardiovascular. Elas apresentam maior risco de internações e complicações mais graves¹.

O risco também varia conforme a região. Pessoas que vivem em áreas de clima tropical, como o Brasil, são mais vulneráveis aos efeitos negativos do calor no coração do que aquelas que vivem em outras regiões climáticas. Durante ondas de calor, esse impacto pode ser ainda maior¹.

Sinais de alerta no verão: o que pode indicar problemas do coração?

A sobrecarga no sistema de termorregulação do corpo, principalmente pelo redirecionamento do sangue para a pele, reduz a pressão de enchimento do coração, o que diminui a quantidade de sangue dentro do órgão, fazendo com que o órgão precise trabalhar mais, batendo mais rápido e com maior esforço².

Esse mecanismo explica por que os batimentos acelerados são um dos sinais de alerta mais comuns de estresse cardíaco, inclusive no calor². O coração é obrigado a bombear com mais intensidade para garantir a circulação adequada, o que pode desencadear outros sintomas importantes2-4:

  • pressão arterial elevada;
  • suor frio ou redução da sudorese, sinal de que o corpo não está conseguindo regular adequadamente a temperatura;
  • tontura ou sensação de desmaio;
  • palidez;
  • dor no peito ou no abdome, que pode ser confundida com dor de gastrite ou refluxo.

Efeitos mais graves podem ser observados quando o estresse sobre o sistema cardiovascular se intensifica ou dura muito, como em ondas de calor².

Isso exige atenção redobrada em grupos mais vulneráveis, especialmente em pessoas com 65 anos ou mais¹.

Os idosos costumam ter menor tolerância fisiológica ao calor. Isso significa, por exemplo, menor capacidade de redistribuir o fluxo sanguíneo ou a convivência com doenças pré-existentes que aumentem o risco de problemas cardíacos¹. “Algumas situações já causam interferências na termorregulação, o que pode ser intensificado pelo calor”, explica o Dr. Jairo. Além disso, o infarto pode ocorrer sem sinais específicos nesse grupo, o que torna essencial observar qualquer mal-estar súbito ou mudança no estado geral de saúde4.

“O alerta também vale para pessoas com doenças como diabetes e obesidade, independentemente da idade, por serem condições que já costumam afetar o coração”, acrescenta o médico. 

Cuidados para a saúde do coração no verão

Segundo o cardiologista, a prevenção de problemas cardíacos no verão começa com medidas que protegem o coração ao longo de todo o ano.

A prática regular de exercícios físicos, uma alimentação adequada e controlar fatores de risco, como o tabagismo, são pilares para reduzir o risco de doenças do coração. Da mesma forma, o controle de condições como colesterol alto, diabetes e obesidade é fundamental para evitar o entupimento das artérias e o infarto3,4.

Durante os meses mais quentes, alguns cuidados específicos ajudam a reduzir o impacto do calor sobre o coração:1,2,5

  • Adaptações nas atividades físicas: evitar exercícios em dias muito quentes ou transferi-los para os horários mais frescos, como de manhã cedo, fim da tarde ou noite. Também é importante aumentar as pausas para permitir o resfriamento do corpo. Para quem convive com doenças cardiovasculares, a orientação é não se exercitar sob calor intenso.

  • Hidratação: beber água regularmente é essencial para repor a perda de líquidos pelo suor, manter o volume sanguíneo e reduzir a sobrecarga sobre o coração.

  • Roupas adequadas: optar por roupas leves facilita a evaporação do suor e ajuda na dissipação do calor.

  • Atenção ao uso de medicamentos: alguns remédios, como diuréticos e betabloqueadores, podem interferir na regulação da temperatura corporal ou na resposta ao estresse térmico, exigindo atenção redobrada.

Para o Dr. Jairo, a avaliação médica antes do início do verão é essencial. “Quando acompanhamos de perto o estado de saúde e os riscos do coração, conseguimos ajustar o tratamento quando necessário e reduzir as chances de complicações, principalmente nos períodos de calor mais intenso”, completa.

Referências

  1. Liu J, Varghese BM, Hansen A, Zhang Y, Driscoll T, Morgan G, Dear K, Gourley M, Capon A, Bi P. Heat exposure and cardiovascular health outcomes: a systematic review and meta-analysis. Lancet Planet Health. 2022 Jun;6(6):e484-e495.
  2. Ebi KL, Capon A, Berry P, Broderick C, de Dear R, Havenith G, et al. Hot weather and heat extremes: health risks. The Lancet. 2021 Aug 21;398(10301):698–708.
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Infarto [Internet]. [Acesso em 21 jan. 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/i/infarto
  4. Brasil. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde. Ataque cardíaco (infarto) [Internet]. [Acesso em 21 jan. 2026]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/ataque-cardiaco-infarto/
  5. Mornas A, Deshayes TA, Bartlett AA, Chaseling G, Jay O, Marzolini S, Simard F, Iglesies-Grau J, Gagnon D. A Scoping Review of Recommendations for Adults with Cardiovascular Disease to Remain Physically Active during Hot Weather. Eur J Prev Cardiol. 2025 Aug 19:zwaf519.

Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor.

Conteúdo elaborado em janeiro de 2026