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Dor crônica e saúde mental: qual a relação? Saiba mais!

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Nem todo mundo sabe, mas a dor crônica tem uma relação muito estreita com transtornos de saúde mental. Inclusive, estudos mostram que isso acontece em ambas as direções, o que pode ser em função do compartilhamento dos mecanismos neurais entre essas condições.¹

Sendo assim, é preciso considerar os dois aspectos — a dor e a saúde mental — para realizar intervenções comportamentais e medicamentosas e fazer o tratamento de ambos os problemas de forma simultânea.¹

Também é fundamental entender essa relação porque pessoas que apresentam dor crônica têm um risco aumentado de desenvolver problemas de saúde mental, inclusive se entregar ao tabagismo e até mesmo cometer suicídio.¹

Debater esse tema é essencial para proporcionar o suporte adequado para pessoas que convivem com a dor crônica, e neste artigo você vai aprender mais sobre o assunto. Continue a leitura.

O que é dor crônica e como é definida?

A Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) define a dor como uma “experiência sensorial e emocional desagradável associada a danos teciduais reais ou potenciais ou descrita pelo paciente em termos de tais danos”.²

Sendo assim, ela se caracteriza por um fenômeno biopsicossocial de ordem complexa, e pode ser tanto aguda quanto crônica.² Segundo a mesma Associação, a dor crônica é aquela que persiste além do tempo considerado normal para a cicatrização do tecido. Assim, costuma ser considerada uma dor crônica quando tem duração de 12 semanas.²

A Classificação Internacional de Doenças (CID-11), tem um código específico para a dor crônica, assim como para os subgrupos dela. Assim, essa classificação define a manifestação dolorosa de ordem crônica como uma entidade clínica distinta.²

Qual é o impacto da dor crônica na qualidade de vida?

É importante entender que a dor crônica não é simplesmente um desconforto. Na verdade, ela tem impactos negativos na vida pessoal, social e no estado psicológico da pessoa, além de trazer consequências econômicas.²

Imagine você calçar um sapato apertado e nunca mais tirar. Ele vai gerar desconforto e dor de forma constante. Pense o quanto isso poderia afetar o seu humor e a sua disposição no dia a dia. É justamente o que acontece com quem sofre de dor crônica. É um desconforto interminável com o qual a pessoa convive. É por isso que existem tantos impactos negativos.

Um estudo que investigou a ocorrência da dor na Europa e mostrou que as pessoas com dor crônica convivem com esse problema por pelo menos sete anos. Um em cada seis desses indivíduos diz que, às vezes, a dor é tão forte que existe o desejo de morte.²

Não é à toa que, como dito na introdução, pessoas que apresentam esse problema têm um risco aumentado de cometer suicídio.¹ Inclusive, a ideação suicida é um sintoma que afeta entre 28% e 48% dos pacientes que buscam tratamento para dor crônica.2

Nesse grupo, os riscos de suicídio são ainda maiores entre os pacientes que apresentam dores nas costas, quadros de fibromialgia e enxaqueca. É por isso que os profissionais da saúde precisam ficar atentos à ocorrência da ideação suicida para lidar com o problema de maneira apropriada.¹

Ainda considerando o estudo realizado na Europa, ele mostrou que para 40% dos participantes a dor crônica afeta as atividades diárias. Quanto à profissão, 61% apresentaram uma capacidade menor ou incapacidade de trabalhar fora de casa, 19% acabaram perdendo seus empregos e 13% tiveram que mudar de emprego em função da dor.²

Como dito, há prejuízos para a vida social, e 27% dos entrevistados disseram que não são capazes ou são menos capazes de manter relacionamentos com familiares e amigos. Inclusive, 21% tiveram o diagnóstico de depressão devido à dor.²

Qual é a relação entre dor crônica e desenvolvimento de doenças mentais?

A estimativa é de que entre 40% e 60% dos pacientes que apresentam dor crônica não gerenciam da maneira adequada o seu quadro doloroso. Logo, é possível perceber um aumento significativo de mortalidade e de morbidade em situações como essa.²

O que acende o sinal de alerta quanto à saúde mental é que entre 20% e 50% das pessoas que apresentam a dor crônica têm, também, depressão² — Mas não se restringe a isso, uma vez que os transtornos de ansiedade são outro quadro que ocorre com frequência nesse grupo de pacientes.¹

Altos níveis de ansiedade foram registrados em mais de 50% de pacientes que apresentam fibromialgia, dor abdominal crônica e distúrbio da articulação temporomandibular. O problema também afeta pessoas com enxaqueca, artrite, dor pélvica, dores na coluna e dor neuropática.¹

O problema se estende ainda para outros transtornos, como a síndrome do pânico, quadros de agorafobia e transtorno de estresse pós-traumático. Pacientes com dor crônica ainda podem recorrer ao tabagismo, conforme explicamos, e abusar de substâncias, como opioides, além do consumo de bebidas alcoólicas e de drogas ilícitas.¹

Vale ressaltar que é preciso ter um olhar cuidadoso para os pacientes idosos. Isso porque a ocorrência de dor crônica associada à depressão é muito prevalente nessa população, sendo que a estimativa é de que 13% dela sofrerá das duas condições de forma simultânea.³

Experiências negativas que se acumulam ao longo da vida geram uma carga emocional que pode desencadear o humor deprimido. A depressão também pode desencadear sintomas somáticos, como no caso da fadiga. Assim, a dor crônica ocorre de maneira associada e apresenta, também, um elemento emocional prejudicial.³

Quais os mecanismos biológicos e psicológicos envolvidos?

Você já ouviu falar em matriz da dor? Esse termo se refere a um conjunto de regiões do cérebro que são ativadas quando existem estímulos considerados perigosos.¹

Essas regiões são compostas por neurônios sensoriais capazes de detectar, por exemplo, calor intenso, frio extremo, excesso de pressão, uma substância química e irritante, entre outros que poderiam causar algum tipo de mal ou lesão e informam o que está acontecendo com o corpo para causar a percepção de dor.

No entanto, essas mesmas regiões estimuladas por algo aparentemente nocivo também podem ser afetadas pelos estados emocionais e comportamentais de uma pessoa. É isso o que permite compreender como os fatores psicológicos tendem a afetar a dor também.¹

A matriz da dor é composta, ainda, por níveis diferentes de atividade neural. Nesses níveis, além de acontecer o processamento dos estímulos, ocorre o processo de percepção e de modulação da dor, que é afetado pelo contexto emocional que aqueles estímulos provocam.¹

Ou seja, em um determinado momento, o cérebro vai identificar e processar essa informação de uma forma individualizada e que envolve fatores psicológicos. Tudo isso associado, forma a memória.¹

Sendo assim, existe essa experiência da dor, que é uma consequência da maneira como esse processamento acontece — e que vai envolver, além da resposta biológica, também a reavaliação emocional de cada estímulo que está sendo recebido.¹

“No caso de uma pessoa com dor crônica, há também a frustração e a sensação de impotência, o que pode fazer com que a percepção da dor se torne mais intensa em função da experiência que a pessoa vivenciou. Esse conjunto de fatores aumenta a tendência para problemas de saúde mental”, ressalta.

A relação entre a dor crônica e os aspectos psicológicos também acontece em função do modelo de medo-evitação da dor. Nesse caso, diversos processos psicológicos formam crenças e comportamentos que acabam se tornando os impulsionadores da incapacidade relacionada à dor. Eles incluem comportamentos, cognições, emoções e atenção.¹

O que acontece é que a emoção do medo é desenvolvida em resposta às sensações negativas que fazem com que a potencial ameaça de dor seja exagerada. Isso inclui também uma interpretação negativa exagerada da sensação da dor em si.¹

Assim, a pessoa desenvolve um estado de hipervigilância e acaba evitando determinadas atividades, sociais ou ocupacionais, e até mesmo os movimentos do corpo que são percebidos como algo que pode potencializar e agravar a dor. Ela começa a evitar essas atividades e isso resulta em um estado de desuso físico e de incapacidade.1

Qual a importância do tratamento multidisciplinar: dor e saúde mental?

Dor crônica e saúde mental: qual a relação? Saiba mais!

A dor crônica e os problemas de saúde mental que acontecem de forma associada a ela requerem uma abordagem multidisciplinar de tratamento. Hoje em dia, com o avanço no entendimento a respeito da dor, foi possível adotar novas intervenções relacionadas ao comportamento e o tratamento medicamentoso.4

A dor crônica precisa ser tratada fisicamente de acordo com a sua origem e os desconfortos e limitações que ela provoca. Uma enxaqueca, por exemplo, requer o tratamento adequado, assim como as dores provocadas por quadros como artrite, artrose e fibromialgia. Mas é preciso ir além de medicamentos e aspectos físicos, olhando para a saúde mental.

O psiquiatra é um especialista importante para tratar os transtornos relacionados à dor crônica e possíveis complicações associadas ao tratamento dela, como em função do uso excessivo de opioides.4

A reabilitação multidisciplinar da dor, por exemplo, é uma abordagem que engloba aspectos físicos e emocionais. Trabalha com abordagens de fisioterapia, terapia ocupacional e terapia cognitivo-comportamental.¹

Estão envolvidos profissionais como fisioterapeutas, enfermeiros, médicos, psicólogos, farmacêuticos, terapeutas ocupacionais e especialistas vocacionais.¹ Práticas como o pilates também podem ser úteis em determinados casos.5

Isso porque essa técnica tem um efeito positivo na dor lombar, por exemplo. Além de aliviar os desconfortos na região dos ombros, no pescoço, promover a mobilidade das articulações e melhorar o equilíbrio, no caso de idosos, reduzindo o risco de quedas.5

Quando focamos somente na dor física não oferecemos o suporte emocional que o paciente precisa para conviver com o problema da melhor forma e praticar a auto aceitação. Por isso, o tratamento da dor crônica precisa olhar para o aspecto humano e envolver as questões psicológicas, os impactos emocionais e os prejuízos que esse quadro provoca.

Quais as recomendações para pacientes com dor crônica e questões de saúde mental?

O acompanhamento médico é muito importante. Afinal, o especialista e o paciente precisam conversar e concordar sobre o objetivo do tratamento para determinar o resultado que se espera e avaliar se houve ou não uma boa resposta.1

Seguir o tratamento médico e psicológico é fundamental para lidar com a dor crônica e com aspectos de saúde mental. Inclusive para interpretar a dor de uma forma mais realista e compreendendo os limites verdadeiros do corpo para ter mais qualidade de vida.

É interessante realizar intervenções comportamentais porque ajudam a melhorar os aspectos funcionais da pessoa. Já os medicamentos estão na primeira linha do tratamento para a dor e para os transtornos de saúde mental.¹

Você viu que o pilates também tem efeitos positivos sobre a dor lombar e outros desconfortos.5 Logo, é válido recorrer a essa prática, inclusive porque programas de exercícios e atividades físicas podem auxiliar no tratamento de uma grande variedade de condições relacionadas à dor crônica.6

Eles apresentam efeitos favoráveis na redução da gravidade das dores. Também melhoram a função física e ainda podem promover efeitos positivos psicológicos e na qualidade de vida.6

A recomendação para quem tem dores crônicas é buscar tratamento médico e apoio psicológico. Seguir as recomendações dos especialistas é fundamental, mas a pessoa também pode adotar um estilo de vida mais saudável, atividades que promovam bem-estar e que ajudam a reduzir o estresse e a ansiedade. Assim fica mais fácil lidar com as próprias emoções e perceber os resultados positivos do tratamento adotado.

Como a dor crônica é um problema com o qual a pessoa convive de maneira duradoura ela pode acarretar impactos negativos na saúde mental,² como você viu ao longo do artigo. Mas seguindo as recomendações dos especialistas para fazer o tratamento completo é possível ter qualidade de vida convivendo com esse problema.6

Já que você se interessa em cuidar bem da sua saúde, aproveite para navegar pelos conteúdos do blog A Vida Plena e conferir temas interessantes como esse.

* Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor.

** As opiniões emitidas pelo(a) especialista são independentes e, necessariamente, não refletem a opinião da Libbs.

Criado em 06 de dezembro/2024.

Referências:

1. Hooten WM. Chronic Pain and Mental Health Disorders: Shared Neural Mechanisms, Epidemiology, and Treatment. Mayo Clin Proc. 2016 Jul;91(7):955-70.

2. Mills S, Torrance N, Smith BH. Identification and Management of Chronic Pain in Primary Care: a Review. Current Psychiatry Reports [Internet]. 2016 Jan 28;18(2). Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4731442/

3. Zis P, Daskalaki A, Bountouni I, Sykioti P, Varrassi G, Paladini A. Depression and chronic pain in the elderly: links and management challenges. Clin Interv Aging. 2017 Apr 21;12:709-720.  

4. Goesling J, Lin LA, Clauw DJ. Psychiatry and Pain Management: at the Intersection of Chronic Pain and Mental Health. Curr Psychiatry Rep. 2018 Mar 5;20(2):12.

5. Yu Z, Yin Y, Wang J, Zhang X, Cai H, Peng F. Efficacy of Pilates on Pain, Functional Disorders and Quality of Life in Patients with Chronic Low Back Pain: A Systematic Review and Meta-Analysis. Int J Environ Res Public Health. 2023 Feb 6;20(4):2850.  

6. Geneen LJ, Moore RA, Clarke C, Martin D, Colvin LA, Smith BH. Physical activity and exercise for chronic pain in adults: an overview of Cochrane Reviews. Cochrane Database Syst Rev. 2017 Jan 14;1(1):CD011279.